Uma das coisas que eu lembro de ter aprendido mais cedo é mentir com "o rabo do lobo". Foi o Walter Lantz quem me ensinou a usar um fato incontestavelmente verdadeiro como evidência de uma grande mentira. O exemplo dele foi que o lobo, bêbado, prendeu seu rabo na porta e teve que amputá-lo. O lobo, querendo convencer seus sobrinho de como os porquinhos são maus, contou uma longa e horripilante história de como os porquinhos lhe cortaram o rabo. Mostrar o cotoco aos sobrinhos foi a "prova" da história do lobo.
Por eu saber a técnica do rabo do lobo, e por eu ser bem inteirada à realidade, é muito comum que eu enxergue os mentirosos além de suas histórias. Isso é bom pra mim, pois eu não fico vulnerável, mas também é péssimo porque eu não tenho pares. Resultado: só eu sei a merda que vai dar, mas a única coisa concreta que eu posso fazer é dizer, depois da merda feita, o famoso "eu avisei". Tento completar com um "vê se me leva em consideração da próxima vez", mas é inútil.
David Shore é quem tem me ensinado com a TV hoje em dia. Ele explica por que as pessoas se recusam a acreditar em mim e por que o "eu avisei" me faz parecer a dona da razão, de um jeito que as pessoas sentem só medo ou raiva ao invés de saber que eu tinha fundamento pra antecipar os acontecimentos.
Aprender com o David Shore é bom, porque deixa o mundo um pouco mais compreensível. Mas também é um saco, pois mais uma vez o meu par é um personagem - alguém que teve o seu universo todo pensado antecipadamente, o que não ocorre no mundo real.
Eu queria que pelo menos uma vez, só uma única vez, eu visse na minha frente, em carne e osso, alguém que pensasse em tempo real - igual a mim.